O depoimento da atriz Marcia Cabrita, pouco antes de falecer!

O depoimento da atriz Marcia Cabrita, pouco antes de falecer!

Bem… eu não conseguia. A cobrança de positividade acabou se tornando um problema. Olhava-me no espelho branca, magrela e de cabelos curtinhos (antes de caírem) e achava que estava pronta para fazer figuração em

 

“A lista de Schindler”. Achava que não tinha chance de sobreviver à cirurgia, só pessoas que não tinham maus pensamentos sobreviviam. Muitas vezes deixei de comprar coisas para mim porque tinha que deixar tudo para minha filha.

 

Bem, se na minha cabeça era esse o pensamento que reinava… Sem chance.

 

O mundo moderno é incrível. Tudo é maravilhoso, não existe sofrimento! As separações são sempre amigáveis e sem lágrimas, as mães não têm mais o direito de embarangar e ficar em casa lambendo a cria.

 

Um mês depois estão lindas, magras, com barriga sarada!

 

Os atores não ficam desempregados, estão sempre felizes com um convite que ainda não pode ser revelado! Quimioterapia é moleza! Vem cá, só eu que não moro na Disney?

 

Hoje percebo que precisei viver esse luto. Ele passou. Apesar do medo, fui confiante para o hospital. Mas outras angústias vieram.

 

Sofri pelo que é “o de menos”, chorei pelos cabelos, pelas sobrancelhas, pelos cílios e pelo…

 

resto que vocês sabem. Chorei pelas dores, enjoos, injeções e tudo mais. Eu me dei esse direito. Eu me dei o direito de ser humana.

 

Então meu giro foi bem devagarzinho, segurando na mão de minha mãe, de minha irmã e de meus queridos amigos e familiares. Girei amparada por Dr.

 

Eduardo Bandeira, por Virginia Portas, Dr. Celso Portela e todos os enfermeiros e profissionais de saúde que foram maravilhosos comigo.

 

Girei rindo e chorando com centenas de comentários no meu blog, em que virei praticamente uma conselheira oncológica.

 

Girei brincando com minha filha, que fez questão de ir à escola de lenço na cabeça “igual à mamãe, porque é muito legal”. Girei para salvar a mim mesma.

 

Sinceramente, não acredito em uma seleção divina. Muitas pessoas bacanas e crianças morrem, e isso não é nem um pouquinho justo.

 

Acho um saco quando dizem “fulano perdeu a batalha contra o câncer”, “fulana tem tanta vontade e alegria de viver que foi salva” ou “o amor por meus filhos me salvou”.

 

Me parece tremendamente injusto.

Quer dizer que quem morre não amava a vida? O amor pelos filhos não era grande o suficiente? A fé foi pouca? Pensamento bem cruel, não é?

 

 

E é uma coisa bem esquisita, isso só acontece com o câncer, a única doença tão estigmatizada. Ninguém diz que alguém perdeu a batalha para o enfarte, nem que amava tanto a vida que ficou bom da tuberculose.

 

Re-mis-são. Estou em remissão. Quem não apresenta mais sinais da doença não pode sair gritando que está curada, então saio correndo e gritando que estou em remissão!!! Eba! Remissão é muito bom!!

 

Vi uma foto minha na internet com meus companheiros de “Subversões”, Aloísio e Salem, em que estou com um largo sorriso. Eu estava verdadeiramente feliz.

 

Sem a pílula da felicidade, sem fingir meus sentimentos, sem bancar a maravilhosa. Era eu simplesmente feliz.

E agora, chega desse assunto! Eu sou atriz e tô mais preocupada com um convite que não pode ser revelado!”